Postagem em destaque

O catador de livros

Ele era só mais um entre tantos numa capital urbana. As vidas transpassando entre passos e descompassos; prazos e atrasos; em meio a percalços e descalços; tratos, maltratos e maus-tratos.

E lá estava ele.

Sucumbindo à dureza da cidade que ergue edifícios que arranham os céus e rebaixa pessoas arrastando-as ao chão. Não era culpa desta cidade, ora pois! Todas têm suas riquezas e pobrezas; suas alegrias e tristezas; suas tolices e suas destrezas; suas bondades e suas maldades; suas mentiras e suas verdades.

Mas nesta, lá estava ele!

Com a roupa do corpo e uma sacola na mão caminhava mesmo sem chão. Não tinha teto, mas a esperança era o seu abrigo. Não tinha rumo e o horizonte era o seu destino. Não tinha pressa, mas o tempo era seu inimigo.

A noite caía, a gente se recolhia, o silêncio ensurdecia.

E lá estava ele.

O sol nascia, a gente surgia, o silêncio findaria.

E lá estava ele.

Todo dia era a novidade que se repetia, a mesmice que persistia, o propósito que se esvaía.

Faminto!

Feliz…

Ela era especial

Ela tinha a doçura de uma menina e a sensualidade de uma mulher. Era pequena, mas seu caráter a agigantava. Sua timidez contrastava com o seu corpo que exalava promiscuidade.

Coxas lisas, macias; quadris largos salientados pela cintura fina que detinha o impressionante poder magnético de atrair às minhas mãos. Sua barriga e seu umbigo também não passavam despercebidos. Seios pequenos, porém firmes, que encaixavam-se perfeitamentes nas minhas mãos; na minha boca. Ainda lembro da harmonia de sensações que isso provocava nela: podia-se perceber suas contrações, sua respiração pesada, ofegante; e principalmente a intensa taquicardia do seu coração que um dia fora meu. Assim como a sua boca. E que boca! Lábios doces, macios, bem delineados e perfeitamente assimétricos. Os quais se apartavam ligeiramente para exibir seu lindo sorriso quando seus olhos caramelo brilhavam de felicidade ao avistar-me chegando. Ai, aquele sorriso! Tenho certeza de que até hoje consegue o que quiser com ele. Por fim, seus cabelos; ora cacheados, ora lisos, mas sempre longos, sedosos e cheirosos.

Pura tentação carnal!

Entretanto, ela não era só carne. Sua história de vida também impressionava.

Outrora precisou fugir do seu próprio lar e da sua própria cidade junto com sua mãe, irmã e irmãozinho ameaçados por aquele que tinha por dever protegê-las: seu pai.

Anos depois, seu regresso tinha sonho de recomeço, reconstrução, esperança. E eu, apesar dos pesares, orgulho-me de ter sido testemunha e participante de uma fatia temporária deste sonho.

Para conseguir o sustento, passava os dias aos pés daqueles que antes os acusaram, difamaram e omitiram-se. Ainda assim, exaltava o seu ofício de manicure e exibia pomposamente a sua "miniarte" comercial.

Ela abria mão de tudo e de todos para estar comigo. Um sofá e um copo d'água era tudo o que precisávamos para tornar aquele momento singularmente nosso.

Ela era especial! Fazia-me sentir especial; único. E não era só sentimento. Por vezes, meus ouvidos foram testemunhas de suas declarações: "Você é especial. Você é único!"

E de fato, eu fui seu único em muitas coisas. Das mais importantes às mais frívolas. Das mais permanentes às mais fugazes. Das mais essenciais às mais supérfluas. Embora, não necessariamente signifique que eu tenha sido o seu primeiro.

Só que o maldito destino nos uniu quando eu ainda não estava pronto. Talvez fosse a pessoa certa na hora errada.

E como foi doído deixá-la! E como foi difícil esquecê-la!

Mas tenho certeza de que este mesmo destino a presenteará com um sortudo que ao lado dela dividirá os sonhos da jovem menina-mulher com nome de palmeira.

Comentários

Os artigos mais lidos

Como seria sua vida se não existisse o celular