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O catador de livros

Ele era só mais um entre tantos numa capital urbana. As vidas transpassando entre passos e descompassos; prazos e atrasos; em meio a percalços e descalços; tratos, maltratos e maus-tratos.

E lá estava ele.

Sucumbindo à dureza da cidade que ergue edifícios que arranham os céus e rebaixa pessoas arrastando-as ao chão. Não era culpa desta cidade, ora pois! Todas têm suas riquezas e pobrezas; suas alegrias e tristezas; suas tolices e suas destrezas; suas bondades e suas maldades; suas mentiras e suas verdades.

Mas nesta, lá estava ele!

Com a roupa do corpo e uma sacola na mão caminhava mesmo sem chão. Não tinha teto, mas a esperança era o seu abrigo. Não tinha rumo e o horizonte era o seu destino. Não tinha pressa, mas o tempo era seu inimigo.

A noite caía, a gente se recolhia, o silêncio ensurdecia.

E lá estava ele.

O sol nascia, a gente surgia, o silêncio findaria.

E lá estava ele.

Todo dia era a novidade que se repetia, a mesmice que persistia, o propósito que se esvaía.

Faminto!

Feliz…

A ignorância é uma benção

Minha cabeça é uma bagunça!

Eu não consigo organizar os meus pensamentos. E são tantos! Constantes, aleatórios, espessos. Tão espessos que dão-me a impressão de que não cabem no meu crânio. Pressão! Tal qual estende-se até ao peito.

Sempre enxerguei o mundo com outros olhos e tenho a certeza de que este mesmo mundo sempre ignorou-me com os seus habituais olhos cruéis da indiferença. 

Eu observo aos tolos; os invejo.

Seus corpos dançam, suas vozes bradam. Parecem tão despreocupados e livres, embora saibamos que estão atados ao senso comum e à conveniência.

A vida é um fardo e refletir sobre ela é um castigo. Os tolos não refletem, apenas vivem.

Eu invejo aos tolos; os observo.

Seu passado descompromissado gerou o seu presente irresponsável que atrairá um futuro inexpressivo. Ainda assim, as conseqüências não os afligem, tampouco causam temor.

Já eu, quando olho pro meu passado: decepção. Quando olho pro meu presente: insatisfação. Quando olho pro meu futuro: frustração. Isso me corrói!

Os tolos são sempre tão sociáveis. Estão sempre aglomerados, cercados de pessoas as quais podem se dar ao luxo de chamá-las de amigos. Embora desconheçam a profundidade de tal relação.

Sempre têm o que falar, embora quase nunca tenham algo a dizer.

Meu amigo travesseiro é também o meu pior inimigo. Não o culpo! Todas as noites tem a árdua tarefa de suportar ao peso da minha cabeça superpovoada e inquieta. Já as minhas pálpebras não parecem ser pesadas o suficiente para a simples tarefa de fazer os meus olhos fecharem. Dormir é um privilégio!

Aquele que diz: "A inteligência é um dom." Digo-te: Não sabes a maldição que a carrega!

A quem diz: "O conhecimento é a base de tudo." Replico-te: É o alicerce para uma edificação de tormentas.

Aos que dizem: "O pensamento nos faz voar." Afirmo-te: Não sabes quão difícil é encontrar o nosso chão.

Sábio, rogo-te: vede e sedes comigo ofuscado à luz da sabedoria. Porém, exorto-te: se puderes, cega-te pela cegueira da tolice e apoia-te na bengala da ignorância.

Aos tolos, a leveza da permissividade. Aos sábios, a dureza da consciência.

Aos tolos, a viagem sem destino. Aos sábios, a jornada ao calvário.

Aos tolos, a ingenuidade. Aos sábios, a culpa.

Aos tolos, a falácia. Aos sábios, o murmúrio.

Os tolos buscam o prazer. Os sábios, a paz.

Aos tolos, a vida. Aos sábios, a eternidade.

Por fim, a infinita solidão; na imensidão de um mundo finito.

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