Lula e sua estreia no The New York Times

Nesta última terça-feira (16/07), o ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva estreou sua coluna no aclamado jornal dos Estados Unidos, o The New York Times.

Como esperado, o conteúdo do seu artigo falou sobre as manifestações e protestos que têm balançado o Brasil nos últimos dias, levando muitos jovens as ruas e políticos a reaverem certas posições.

No texto, Lula, lembrou das manifestações que estão ocorrendo em outros países como Egito e Tunísia. E afirmou que nestes países, os motivos da insatisfação popular são mais fáceis de explicar do que as razões dos brasileiros. O ex-presidente também, não poupou elogios ao seu governo e ao atual da Presidenta Dilma Rousseff. Ele disse, em outras palavras, que muito do que está acontecendo reflete uma atitude que tem revolucionado a política nacional desde os tempos de ditadura.

O novo colunista do NYT, ainda ressaltou a necessidade de uma reforma em seu partido, o PT e a importância dos jovens estarem cada vez mais engajados com assuntos políticos.

Confira o texto na íntegra e em português do artigo publicado:

"A Mensagem dos Jovens do Brasil

Gente jovem, dedos rápidos nos celulares, tomaram as ruas ao redor do mundo.

Seria mais fácil explicar esses protestos que ocorreram em países não-democráticos, como Egito e Tunísia em 2011, ou em países onde a crise econômica elevou o número de jovens trabalhadores desempregados ao extremo, como Espanha e Grécia, do que em países emergentes com governos democráticos populares – como Brasil, onde atualmente temos a menor taxa de desemprego de nossa história e uma expansão econômica e de direitos sociais sem precedentes.

Muitos analistas atribuem os recentes protestos a rejeição aos políticos. Eu acho exatamente o oposto: eles refletem o desejo de ampliar o alcance da democracia, para encorajar o povo a ser mais envolvido.

Posso falar com autoridade apenas do meu país, Brasil, onde acho que as demonstrações são resultado de amplo sucesso social, econômico e político. Na última década, Brasil dobrou o número de estudantes universitários, muitos oriundos de famílias pobres. Nós reduzimos muito a pobreza e a desigualdade. Essas são conquistas significativas, assim, é natural que os jovens, especialmente aqueles que obtiveram coisas que os país nunca tiveram, desejem mais.

Esses jovens não viveram a repressão da ditadura militar dos anos 60 e 70. Eles não viveram a inflação dos anos 80, quando a primeira coisa que fazíamos com o salário era correr para o supermercado e comprar tudo que fosse possível antes que os preços subissem para o dia seguinte. Eles lembram muito pouco dos anos 90, quando a estagnação e o desempregou deprimiu o país. Eles querem mais.

É compreensível que seja assim. Querem que a qualidade dos serviços públicos melhore. Milhões de brasileiros, incluindo aqueles da classe média emergente, comprou seus primeiros carros e começou a viajar de avião. Agora, o transporte público precisa ser eficiente, simplificando a vida nas grandes cidades.

As preocupações dos jovens não são apenas materiais. Querem acesso a lazer e atividades culturais. Mas acima de tudo, eles exigem que as instituições políticas sejam mais limpas e transparentes, sem as distorções do anacrônico sistema político e eleitoral brasileiro, que recentemente mostrou ser incapaz de reformas. A legitimidade dessas demandas não pode ser negada, mesmo que seja impossível atende-las rapidamente. Primeiro é necessário encontrar fundos, estabelecer metas e definir prazos.

Democracia não é um compromisso com o silêncio. A sociedade democrática é um fluxo, debatendo e definindo prioridades e desafios, constantemente desejando novas conquistas. Só numa democracia um índio poderia se eleger Presidente, como na Bolívia e um Afro-Americano poderia ser eleito Presidente dos Estados Unidos. Só numa democracia poderiam, primeiro um metalúrgico e depois uma mulher, serem eleitos Presidente do Brasil.

A história mostra que quando partidos políticos são silenciados, e soluções surgem da força, o resultado é desastroso: guerras, ditaduras e perseguição de minorias. Sem partidos políticos não existe real democracia. Mas as pessoas não querem apenas votar a cada quatro anos. Eles querem interações diárias com seus governantes locais e nacionais e participar da definição de políticas públicas, oferecendo opiniões nas decisões que afetam seus cotidianos.

Em resumo, querem ser ouvidos. Isso cria um enorme desafio para os líderes políticos. Requer melhores formas de engajamento, via midias sociais, nos negócios, nos campi, reforçando a interação com grupos de trabalho e líderes comunitários, mas também com os chamados setores desorganizados, cujos desejos e necessidades não devem ser menos respeitados por sua falta de organização.

Foi dito, e com razão, que enquanto a sociedade entrou na era digital a política continuou analógica. Se as instituições democráticas usassem as novas tecnologias de comunicação como um instrumento de diálogo e não para a mera propaganda, iriam injetar ar fresco em suas organizações. E isso seria eficiente para sintonizá-los com todas as partes da sociedade.

Até o PT que eu ajudei a fundar e que ajudou a modernizar e democratizar a política do Brasil, precisa de uma profunda renovação. Ele deve recobrar o contato diário com os movimentos sociais e oferecer novas soluções para novos problemas, e faze-lo sem ameaçar os jovens com paternalismo.

As boas novas são que os jovens não são conformistas, apáticos ou indiferentes à vida pública. Até aqueles que dizem odiar política estão começando a participar. Quando eu tinha a idade deles, eu nunca imaginei que seria um militante político. Mesmo assim, acabamos por criar um partido político quando descobrimos que o Congresso Nacional praticamente não possuía representantes da classe trabalhadora. Através da política, conseguimos restaurar a democracia, consolidar a estabilidade econômica e criar milhões de empregos.

Claramente ainda há muito o que fazer.

É uma boa notícia que nossos jovens queiram lutar para garantir que a mudança sociais continue em ritmo mais acelerado.

A outra boa notícia é que a Presidente Dilma Rousseff propôs um plebiscito para levar em frente a reforma política tão necessária. Ela também propôs um compromisso nacional com a educação, saúde e transporte público, onde o governo federal vai prover financiamento e suporte técnico para Estados e Municípios.

Quando falo com líderes jovens do Brasil e outros países, gosto de dizer: mesmo quando você está desencorajado por tudo e todos, nunca desista da política. Participe! Se você não encontrar nos outros os político que procura, você pode encontrar em você mesmo."

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